Vítimas de arma de fogo só são socorridas quando a Polícia Militar já está no local; enfermeira relata momento de terror

Atendimentos a vítimas de arma de fogo são feitos com apoio da PM
FOTO: FELIPE BRASIL
Foto: Felipe Brasil

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) é um órgão essencial para salvar vidas em qualquer lugar do país, seja de ocorrências simples a tentativas de homicídio ou acidentes graves. Mas este serviço precisa de escolta policial para o atendimento de determinadas ocorrências, devido às ameaças sofridas pelos profissionais. Em Alagoas, o socorro às vítimas de tentativas de homicídio provocadas por arma de fogo só é feito mediante a presença da Polícia Militar. Uma medida que garante o cumprimento do dever dos enfermeiros e médicos diariamente no estado.

Segundo dados divulgados pelo Samu, somente no primeiro semestre deste ano, foram realizadas 12.555 atendimentos. Destas, 2019 ocorrências foram para atender vítimas de arma de fogo e 122 por arma branca. Todas foram realizadas sob proteção da PM.

Major Dárbio Alvim diz que medida é para proteger profissionais do Samu
FOTO: RAFAEL MAYNART

O supervisor do Samu em Alagoas, major Dárbio Alvim, essa medida passou a ser adotada após os profissionais serem ameaçados pelo autor de um crime durante uma ocorrência. Segundo ele, relatos dos profissionais era que o criminoso não queria que a vítima fosse socorrida porque ele queria terminar o “serviço”. Ou seja, queria que a vítima fosse a óbito.

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“Geralmente, em casos de arma de fogo, o autor do crime fica próximo ao local para ter certeza que a vítima entrou em óbito. Com a chegada do Samu, o papel da equipe é garantir a vida dela, realizar os procedimentos e encaminhá-la para o hospital. Mas o autor do crime não quer que ela seja socorrida e, por isso, ameaça a equipe para que o trabalho dele [criminoso] seja concluído”, explicou.

De acordo com Dárbio, 90% da equipe do Samu é formada por mulheres, entre elas a Joaquina (nome fictício para garantir a segurança da profissional), que passou por momentos de tensão durante o socorro a uma vítima em 2007.

Segundo Joaquina, ela estava de plantão quando o Serviço de Atendimento Móvel recebeu o chamado para uma tentativa de homicídio no bairro do Vergel do Lago, em Maceió. Ela relatou que não demorou 15 minutos para que a ambulância chegasse ao local indicado. Quando a equipe se preparava para iniciar o procedimento, um homem armado se aproximou da equipe e fez ameaças contra os profissionais.

“Lembro que desci da ambulância e quando me aproximei da vítima, ele chegou perto de mim e disse pra eu voltar pro carro por que era pra deixar a vítima morrer. Ele disse que se alguém tocasse nele, seria necessária outra equipe para realizar o socorro, porque seriam dois corpos no chão”, relatou.

Joaquina contou que precisou ficar afastada por 1 mês devido ao trauma, já que não havia vivenciado algo deste tipo. Ela disse que não era recorrente este tipo de ameaça, mas após um período, quando outras equipes também foram ameaçadas, a direção do Samu instituiu que atendimentos a vítima de tentativa de homicídio só seriam realizados após a chegada da Polícia Militar ou sob escolta policial.

Dárbio explicou que, quando o Samu recebe o chamado, se for para homicídio, eles acionam a polícia, esperam os militares chegarem ao local e só depois saem da base. A orientação é válida para toda e qualquer ocorrência no estado.

Entre os milhares de casos atendidos pelo Samu que aconteceram com a proteção da polícia, está o emblemático assassinato do vereador por Batalha, Neguinho Boiadeiro, em novembro de 2017.

De acordo com o supervisor, três viaturas estavam em Santana do Ipanema prontas para o atendimento, mas devido à determinação, esperaram o comboio de policiais para seguirem com o socorro.

“Nossa base na cidade estava desativada na época, por isso tivemos que mandar a de Santana. Nesse dia, só fomos após o comboio de policiais também seguir para Batalha. Infelizmente, essa é a realidade vivida pelos profissionais”, contou.

Coronel Neyvaldo disse que a PM está pronta para proteger
FOTO: RAFAEL MAYNART

Segundo o comandante de Policiamento da Capital (CPC), coronel Neyvaldo, a Polícia Militar está disponível para garantir a segurança em qualquer região de Maceió, seja para qualquer tipo de situação. No caso do Samu, é justamente para garantir que o atendimento à vítima ou para que a constatação do óbito seja feita.

“A PM está pronta para garantir a segurança. Qualquer pessoa pode nos ligar e pedir o apoio da polícia, que estaremos lá. Seja para situações de resgate, seja para escoltar empresas que precisam realizar determinado tipo de serviço, ou qualquer coisa”, explicou.

Neyvaldo também destacou que o trabalho ostensivo da Polícia Militar tem garantido a execução de serviços básicos à sociedade e que contribuiu para a redução no número de roubos a veículos dos Correios em áreas críticas da capital.

“Houve uma época em que todos os dias um carro dos Correios era assaltado. Após reunião com a direção da empresa, nos comprometemos que nos dias de entrega em áreas já conhecidas por conta da criminalidade, a Polícia Militar irá reforçar o trabalho ostensivo para coibir ações criminosas. Isso tem sido feito e tem garantido a segurança dos profissionais e a entrega em dia das correspondências”, concluiu.

Outros casos

Nos outros tipos de ocorrência, as equipes do Samu realizam o atendimento normalmente. Apenas em casos de pacientes psiquiátricos, a Polícia dá o apoio porque, devido à crise que se encontra o paciente, há o risco de haver alguma agressão aos profissionais.

com GAZETAWEB